Convidamos nossas pesquisadoras a refletir sobre algumas questões!
Agora você conhece um pouco mais sobre elas aqui!

Trabalho é essa atividade, esse esforço para manter todas as coisas de uma maneira que atenda às expectativas que tenho e que não construo sozinha, mas na minha experiência com os outros”.
Quem é Gislene?
Doutora em Processos e Manifestações Culturais, com ênfase em Linguagens e Processos Comunicacionais (Feevale). Estágio doutoral em estudos ergológicos (Université de Strasbourg).
Membro do comitê executivo do Research Group on Collaborative Spaces (RGCS), colaboradora no Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória (CITCEM).
Uma sonhadora, crente na utopia de um mundo mais justo, mais sustentável. E que a utopia nos ajude a caminhar!
O que é trabalho para mim?
Venho aprendendo que trabalho é algo tão profundo, algo que define quem eu sou, sim. Mas eu não entendo o trabalho como o vínculo contratual que eu tenho. Isso se chama, contrato de trabalho (aqui trabalho é a característica do tipo de contrato). Isso é apenas o conjunto de resultados que eu assumo o compromisso de entregar. Mas esses resultados, por fim, não são meus. Inclusive, por isso que muitos contratos preveem que nós repassemos a autoria a quem financiou o projeto e não quem o executou. Ainda assim, o contrato regula os resultados do trabalho e tem algumas interferências na minha vida por meio deste contrato, para o qual comprometi x horas, x dias.
Também não olho para o trabalho como aquele emprego que é fornecido pela empresa x e que é pleno de promessas. Esta é uma relação de emprego, mediada por um contrato, regulada por leis de domínio público e jurídico.
Também não olho para o trabalho como aquela lista de tarefas que diariamente organizo em prol de certo controle do que faço, dos eventos que vivencio.
Isso tudo impacta meu trabalho, mas não é o seu coração.
Por fim, trabalho também não é minha profissão, aquela que pode estar escrita no meu diploma, regulamentada por lei e com acompanhamento de entidades. A profissão é um instrumento de construção de identidade, de aproximação e de afastamento, mas está apenas na camada externa do trabalho.
O coração da atividade de trabalho está na minha implicação, no envolvimento do meu corpo em meio a todas essas normas. Quais emoções, quais reflexões, quais músculos, quais risos e lágrimas, quais palavras, quais encontros: as respostas a essas perguntas definem o que é trabalho para mim e por isso digo que, sim, meu trabalho me define, a forma como respondo a tudo isso que se impõe, a posição que eu assumo diante de tudo isso estabelece quem eu sou. Em suma, trabalho para mim é essa atividade, esse esforço para manter todas as coisas de uma maneira que atenda às expectativas que tenho e que não construo sozinha, mas na minha experiência com os outros.
Como o Coffee and Work tem feito parte da minha vida?
O Coffee and Work nasceu de minha tese, em um momento de grande questionamento: como partilhar todas essas lições agrupadas em um relatório de investigação? Como conformar a minha atividade de trabalho enquanto investigadora apenas em um texto registrado em bibliotecas? Eu acredito muito no potencial humano e no desenvolvimento dessas qualidades que são decorrentes do nosso desconforto intelectual, pela busca de soluções que nos aproximem enquanto coletivos. A ergologia e as concepções de comunicação que desenvolvemos aqui tem esse propósito. Então, o Coffee and Work é parte fundamental da minha vida. E eu acredito que esse encontro entre conhecimento científico e vivências no cotidiano tem ainda muito potencial, especialmente quando tratamos das humanidades e ciências sociais. Todos somos atores nesse processo e precisamos estar a par dos louros e dores desta responsabilidade. Por isso estamos aqui! Para construir conhecimento, entender o mundo e transformá-lo.
Sobre o que você vai falar no Coffee and Work?
Os temas principais de minhas investigações são: atividade de trabalho, comunicação, organizações e o ser que trabalha. As bases teórico metodológicas que me orientam são a ergologia e os estudos fenomenológicos acerca da comunicação nas organizações. Pareceu muito difícil? Vamos olhar de outra maneira: quero entender e te apoiar na compreensão de que o trabalho vai além da tarefa, do emprego, do contrato, da profissão. Quero desenvolver contigo um olhar que te faça refletir sobre o invisível do trabalho, aquilo que por vezes escolhemos deixar em segundo plano, mas que define o modo como nós conversamos com nossos colegas, como decidimos fazer a e não b em uma situação e, finalmente, como nós nos organizamos coletivamente a partir desses comportamentos.
Quem você quer convidar para estar conosco no laboratório?
Temos muitos planos para construir a mensagem de transformação do olhar para o trabalho que acreditamos. Queremos convidar você a estar conosco nestas ações: você que trabalha e que acredita que a sua ação não é isolada no mundo, mas que sim, define os caminhos que estamos seguindo. Quero convidar você que quer interagir com o outro de uma maneira distinta da atual, pois algo, que você nem sabe bem o que é, diz que há outras possibilidades. Quero convidar você que acredita no potencial do trabalho, das conexões do coletivo e no conhecimento! Venha fazer parte da nossa rede e fazê-la mais forte.
O que você espera de 2022?
Eu gostaria que fosse um ano de reencontros, de escuta e de paz. Entretanto, esses comportamentos parecem escapar entre os dedos. Então, espero que possamos, com nosso micro contextual possibilidade de ação, conduzir reflexões profícuas sobre o trabalho, que possamos convidar todos a pensar sobre sua vida e como os valores que temos hoje, no contexto macro, tem levado a exaustão da natureza, lembrando que nós mesmos somos seres dessa natureza. Espero que possamos refletir mais e agir com mais responsabilidade.