Reflecting

Pensamento e estresse: dilemas da vida

Coffee and Work Lab Blog Burnout

Vamos pensar o pensamento.

Como assim? Uma espiral mental?

Calma, vem conosco que você vai entender tudo!

Vamos pensar o pensamento. Ao ler esse trecho da frase você pode ter ficado em dúvida: como assim? Um espiral mental? Bom, em partes, essa é mesmo a ideia, pois se pararmos por um segundo e tentarmos entender os movimentos que a nossa mente faz associando as inúmeras cores, formas, cheiros, sabores, sons, percebemos que a espiral pode ser uma alegoria interessante para entender o movimento do pensar. Nossas ideias não são lineares, ainda que haja um esforço imenso para que assim façamos a sua organização.

Por exemplo, se considerarmos aquela máxima “você não deve misturar as coisas: trabalho é trabalho, problemas pessoais são pessoais (e vice-versa)”, vemos que esse esforço em criar linearidades ao quebrá-las tem êxito, pois fortalece uma ideia de racionalidade que não necessariamente caracteriza a nossa espécie. Como ser vivo, a complexidade envolvida está para além das questões orgânicas em si, mas envolvem produtos sociais que criamos, como normas e padrões, além dos produtos mentais que estão na base de todas as nossas relações coletivas.

Essa introdução pode parecer confusa – e pode ser que ela realmente seja – mas a frase que escolhemos para refletir nessa semana instiga essa miríade de pensamento. Atribui-se ao psicólogo norte-americano, William James, a seguinte frase:   

“A maior arma contra o estresse é nossa habilidade de escolher um pensamento ao invés do outro”.

Quem é William James?

Conhecer um pouco do autor desta citação que escolhemos pode auxiliar na sua compreensão. James foi um psicólogo, filósofo e historiador norte-americano (11/01/1843-26/08/1910). Em termos de linha filosófica (vamos assim dizer), ele está associado ao Pragmatismo e ao funcionalismo, escolas por vezes criticadas por sua objetividade, que tende a ser excessiva considerando a diversidade humana.

Coffee and Work Lab William James

Ainda que possamos concordar com essa crítica à perspectiva de James – e concordamos, de certa forma – precisamos considerar que o trabalho dele foi pioneiro no século XX, já que o estudo da Psicologia enquanto disciplina surgiu apenas no final do século XIX. Além disso, por vezes, iniciar a compreensão da vida por meio de conceitos funcionais pode ser mais atrativo e viável para nosso desenvolvimento.

Bom, voltando a frase, vamos parti-la em trechos para que possamos pensá-la:

“A maior arma contra o estresse” – Primeiramente, podemos ter problema com essa analogia armamentista (eu tenho). Entretanto, trata-se de um elemento narrativo comum, ainda mais no século XX. Aos poucos nós vamos nos afastando dessas soluções baseadas na violência para abordar e considerar nossas experiências. Enfim, a ideia é que possamos entender que o estresse é um fenômeno que se aproxima de nós e que podemos responder a ele. Idealmente, sem violência, para evitarmos consequências traumáticas, mas o importante é manter a compreensão de que podemos opor o estresse, um evento desagradável e que traz várias consequências para nosso corpo orgânico (dores, por exemplo).

“[…] nossa habilidade de escolher […]” – se retomamos a ideia de oposição, neste ponto, James nos mostra como fazer frente ao estresse: 1) por meio de uma habilidade; 2) a habilidade da escolha. Uma habilidade pode ser nata, sim, podemos nascer com facilidade para determinadas ações, mas, sobretudo, ela pode ser aprendida. Após ambos os estágios iniciais (nascer com/ aprender) vem algo que todos precisamos fazer: refinar, aprimorar. Apenas avançamos com as habilidades quando vivenciamos a sua prática. Então, se a escolha é uma habilidade, precisamos exercitá-la para que possamos refiná-la a cada situação. Nós passamos a vida fazendo escolhas. A cada momento nós escolhemos como daremos sequência às coisas.

“[…] um pensamento ao invés do outro”. – E ao perceber a escolha como uma habilidade que pode ser aprimorada, James assumiu que o conteúdo de nossos pensamentos é também uma escolha. Vamos tomar a história abaixo como exemplo.

Na terça-feira, ao amanhecer, notei que uma forte dor tomava conta da minha cabeça. Meu corpo parecia sem forças. “Seria o resultado de minha caminhada ontem a noite sem um chapéu?” – pensei comigo mesma. Empurrei o dia, cheio de reuniões e ao entardecer, pensei: “- Estamos em meio a uma pandemia, seria importante fazer um teste e ter certeza de que não estou infectada e que isso é apenas resultado de minha inconsequente caminhada”. Por fim, o teste foi positivo. Minha pior suspeita, confirmada. “Oh, não, e minha viagem? Tenho os bilhetes, o hotel, tudo reservado. E agora? E meu esposo, estará ele também infectado? E agora? Bom, de fato, agora, só me resta isolar-me e aguardar.

Frente a um resultado positivo para covid-19, como podemos responder? Por certo que a pandemia já foi base para muitos pensamentos associados ao medo. Como não o ter, com tantas mortes? Por outro lado, a esta altura, após vacinas disponíveis e devidamente tomadas, máscaras devidamente vestidas, a segurança deveria imperar: fizemos o que estava ao nosso alcance e mesmo assim, aconteceu.

O fato de ter um teste positivo em nossas mãos, para qualquer doença, inicialmente, tira o nosso chão. Mas conforme vamos desvendando o nosso pensamento e escolhendo os pensamentos que respondem a ele, vamos construindo argumentos que solidificam os nossos pontos de vista.

Quando James fala da possibilidade de opormos o stress com a escolha de um pensamento, ele ressalta que até certo ponto, nós temos controle da situação. Nossa reação ao fato não o transforma, mas ela pode ser desencadeadora de estresse, dores, e uma infinidade de sensações e emoções.

Pensar sobre o bem-estar na vida, por vezes, implica sermos bastante diretos (pragmáticos, funcionais) na avaliação das condições e situações que vivemos: 

  1. Aquela situação me desagrada? 
  2. O que posso fazer a respeito dela? 
  3. O que está além da minha possibilidade de ação?

Quando a Ergologia nos convida a refletir sobre como organizamos o meio em nosso entorno, essas questões vêm à tona. Quais elementos que se impõem nós estamos escolhendo? Quais deixamos passar?

E isso tem muita relação com estresse, trabalho, vida. Precisamos exercitar a escolha para melhor lidar com os fatos do cotidiano.

Gislene Coffee and Work Lab

Gislene Feiten Haubrich é Doutora e Mestre em Processos e Manifestações Culturais. Dedica suas investigações aos estudos comunicacionais no contexto das organizações sob os enfoques da Ergologia, das teorias Bakhtiniana e Discursiva. Fale com: gislene@coffeeandwork.net.