Reflecting

Informação e estresse: como organizar o pensamento?

Coffee and Work Lab Blog Trabalho

 

Neste texto, trazemos algumas dicas para organizar o pensamento e tentar lidar com esse tanto de informações que está à nossa porta diariamente.

 

Nesta semana, nossas reflexões estão voltadas ao estresse, ao trabalho e ao pensamento. Começamos a semana escolhendo uma frase de William James, psicólogo norte-americano, vinculado às escolas pragmática e funcionalista. Falamos sobre a importância da objetividade para lidar com determinados fatos do cotidiano, para que possamos avançar na sua compreensão.

Na sequência tratamos do tema no burnout, com dados a respeito da doença que agora oficialmente é tratada como resultado da exaustão no trabalho. Apoiados em materiais preparados por instituições de saúde internacionais, separamos algumas dicas para identificar e lidar com a patologia.

Para fecharmos a reflexão, gostaríamos de trazer algumas dicas para organizar o pensamento e tentar lidar com esse tanto de informações que está à nossa porta diariamente. Por meio de nutricionistas, cardiologistas, endocrinologistas, entre outros profissionais, nós sabemos que os excessos de açúcar, álcool, sal (e a lista só cresce), nos levam a exaustão corporal manifesta por diabetes, obesidade, hipertensão (e a lista de doenças também só cresce).

Assim, por meio do trabalho de neurologistas, cientistas da informação e da comunicação, nós já sabemos que o excesso de informação também apresenta seus danos. Há vários nomes associados a esse fenômeno, mas optamos por falar apenas em excesso de informação para evidenciar a ideia que consideramos importante guardar para pensar em organização do pensamento.

Entendendo o problema

Primeiramente, importa esclarecer que vamos falar sobre o problema do excesso de informação sob o ponto de vista das ciências da comunicação, quer dizer, uma perspectiva social, coletiva. Entretanto, a perspectiva relacional que suporta a nossa abordagem considera a interdependência entre as dimensões individual e coletiva. Ainda assim, não vamos nos aventurar a propor reflexões acerca da subjetividade, uma arena de investigadores da psicologia.

Por um lado, podemos falar do corpo-si, termo desenvolvido por Yves Schwartz (temos um vídeo sobre esse conceito, clica aqui para assistir) para que nós tenhamos uma compreensão complexa do que significa um ser de atividade. Por outro lado, falamos a partir da compreensão bakhtiniana de ato ético. Mas calma, vamos ter cautela nas teorizações.

A primeira questão que precisamos considerar é que estamos em interação o tempo todo. Interagimos com os textos que lemos (seja em telas, papel, ônibus, outros corpos). Interagimos com pessoas com as quais falamos (havendo ou não mediação tecnológica). Interagimos conosco mesmos quando ponderamos informações. Por certo, ter ciência da nossa permanente interação com o meio pode ser desgastante e mesmo assustadora. Mas trata-se de um fato.

Agora que temos isso em consideração, vamos tentar entender a complexidade envolvida na gestão do volume de informações que temos de lidar diariamente. A história pode ajudar.

Pela manhã, muitos de nós optam por despertar com o som do celular. Invariavelmente, temos de tomar o aparelho em mãos para desativá-lo (ou colocar no modo soneca). Aí, percebemos uma série de notificações. Isso, é claro, se habilitamos a função não perturbe durante a noite. Ao notar as notificações, optamos por abrir alguns dos aplicativos e olhar com um pouco mais de envolvimento àquela notificação. Passados dez minutos, damo-nos conta que será necessário colocar os pés para fora da cama e dar sequência as atividades de mais um dia na vida. É claro que ao perceber isso, também nos damos conta da programação que temos para o dia. Da ida ao supermercado, de onde almoçar, dos eventos, dos e-mails… E tudo isso já aconteceu antes mesmo de colocarmos o pé para fora da cama pela manhã

Na primeira hora da manhã, provavelmente, já realizamos cerca de dez interações. Tudo isso antes mesmo de colocar o pé para fora da cama. Nosso corpo já teve de registrar novos dados, associá-los aos anteriores, criar categorias mentais. Os hormônios já estão em ebulição pelo corpo e as costas já começam a enrijecer.

A relação entre informação e corpo é intensa. Imagina se multiplicarmos essa relação para cada habitante da Terra.

Inclusive, a partir de um relatório divulgado pelo Hootsuite em janeiro de 2021 (referente ao terceiro trimestre de 2020), a gente consegue ter uma ideia clara do quanto estamos consumindo conteúdos online:

  • Média global é de 6h54min de uso diário de internet. O Brasil ocupa a segunda posição na lista, com uma média de 10h08min
  • 63% das pessoas afirma usar a internet especialmente para buscar informações, seguidos de 56% das pessoas que usam a conexão para manter contato com seus amigos e familiares.
  • 90% das pessoas usa a internet para assistir a vídeos e 73% utiliza plataformas para ouvir música.  

Por isso falamos em organizar o pensamento, lá no título do texto. Por que queremos chamar a atenção para a necessidade que temos de escolher:

  • as fontes de informação que confiamos,
  • o modo como registramos as informações,
  • a relevância que elas têm para os problemas que temos de resolver
  • registrar em papel quais são os problemas que temos de resolver

A importância do registro escrito de informações para que nosso cérebro tenha condições de lidar com o insano volume de dados que consumimos diariamente é um fator preponderante para que possamos reforçar memória e compromisso coletivo.

Então, a resposta para gerenciar informação é gerar mais informação?

Parece contraditório, mas as coisas vão mesmo por aí. Vamos retomar esse tema em breve e desenvolver mais essa relação. Enquanto isso, se quiser contribuir com as nossas reflexões, deixe seu comentário!

Dicas para lidar com o excesso de informação:

Depois de todas essas ponderações, optamos por fechar esse texto com dicas dos investigadores Dra. Sara Gorman e Dr. Jack M. Gorman, disponíveis no site Psychology Today para apoiar a nossa forma de gerir a recepção de informações:

  • Defina momentos específicos do dia para ler notícias – isso mesmo. Nada de ficar com o navegador aberto em sites de notícias ou adicionar novos RSS.  
  • Desligue as notificações: no laptop, no smartfone, em todos os lugares. 
  • Defina momentos específicos do dia para acessar as mídias sociais – assim como verificar as notícias, notificações vinculadas aos círculos sociais que estabelecemos online pode ser vetor para ficar horas passando para a próxima foto ou vídeo. (Atire a pedra quem nunca acessou o smartphone para ver a previsão do tempo, viu a notificação dos apps e depois de meia hora esqueceu para que pegou o aparelho)
  • Não use o smartphone antes de dormir – é difícil, eu sei. Mas a luz das telas realmente impacta o nosso cérebro. Quanto mais tempo levamos para nos desligar das telas, mais nosso descanso é prejudicado. Nós falamos sobre isso a partir do livro da Maryanne Wolf, O Cérebro no Mundo Digital. Se você ainda não assistiu aos vídeos, clique aqui e assista!
Gislene Coffee and Work Lab

Gislene Feiten Haubrich é Doutora e Mestre em Processos e Manifestações Culturais. Dedica suas investigações aos estudos comunicacionais no contexto das organizações sob os enfoques da Ergologia, das teorias Bakhtiniana e Discursiva. Fale com: gislene@coffeeandwork.net.

Quer saber mais?

Nesta live conversamos com o especialista em mindfulness, Damien Desnos. Além de dicas sobre como lidar com o estresse, ele apresenta aspectos contextuais da práticas e mostra exercícios que podemos fazer em casa!