Reflecting

O tempo escorre entre os dedos. E o que fica?

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Ralph Waldo Emerson uma vez disse:

“A sabedoria consiste em compreender que o tempo dedicado ao trabalho nunca é perdido.” Eu me pergunto se ele fazia referência ao tempo relógio ou ao tempo vivido; se referia-se ao trabalho vendido ou ao trabalho vivido.

Por várias questões, nós podemos pressupor que ele trata do tempo do trabalho vendido à empresa; à troca monetária que transforma o trabalho (e quem trabalha) em mercadoria. Emerson era norte-americano e nós sabemos que a expressão “time’s money” (tempo é dinheiro) surgiu por lá. Entretanto, Waldo viveu durante um período de grandes transformações no processo de produção e consumo[1]. Ele viu a emergência do movimento capitalista alinhado à primeira revolução industrial. Viver naquele período (aquele meio) impulsionou Ralph Waldo a pensar em respostas que, curiosamente, vão na direção oposta ao movimento que se fortalecia. Ele foi um dos grandes nomes do Transcendentalismo[2].

Ps. Transcendentalismo foi um movimento de resistência às mudanças emergentes com a revolução industrial, como: monotonia, devastação da natureza devido à urbanização, e movimentação das populações rurais para as cidades. Aproveitando os parênteses, podemos fazer um paralelo ao movimento nômade instigado neste século XXI (por exemplo, o governo português tem incentivado nômades digitais a mudarem-se para o interior, ocupando zonas de baixa densidade populacional). Neste momento, percebemos um movimento contrário de incentivo à saída dos grandes centros para habitar em zonas periféricas e, em muitos casos, felizmente há algum planejamento e uso de técnicas de convivência respeitosa entre os humanos e demais seres do meio ambiente.  

Diante deste contexto, parece-me que a frase Ralph Waldo é mais ampla e realmente abre a via para pensarmos no trabalho enquanto experiência formadora. Mas o que isso quer dizer? Vamos começar por pensar nas duas palavras separadamente.

Experiência

Se partirmos de uma definição do dicionário[3], experiência implica “1. ato ou efeito de experimentar; 2. Conhecimento por meio dos sentidos de uma determinada realidade”.  Trata-se de uma compreensão filosófica que, como sabemos, embasa o método científico, assim como quase todas as abordagens da vida humana. Trocando em miúdos, falamos de uma ação (experimentar) particular que se desdobra em sentidos produzidos acerca de uma realidade e base da construção de conhecimento.

Formação

Enquanto verbo, formar quer dizer a ação de construir. Aqui flexionamos a palavra enquanto adjetivo: a característica da experiência é ser formadora. Alguém pode reconhecer uma certa redundância, já que a experiência em si já é a fonte para a produção de sentidos. Entretanto, a concepção de formação implica a institucionalização de um conjunto de saberes. A família é uma instância de formação, a escola é outra. Enfim, o trabalho também o é. Diferentes experiências compõem cada uma dessas instâncias. Todavia, não há a anulação de uma em relação a outra. Nosso corpo realiza inúmeros movimentos e está sempre a reelaborar conceitos e ideias.

Diante disso, pode-se entender o trabalho enquanto experiência formadora, por um lado, que extrapola os benefícios (presentes, folgas, palestras etc.) que a empresa oferece, uma vez que são apenas uma pequena parte do que determina a experiência laboral. Isso não quer dizer, é óbvio, que esse tipo de incentivo seja desnecessário ou sem valor. Ao contrário, o valor atribuído a essas compensações externas depende do respeito e valorização das contribuições que cada indivíduo é capaz de realizar. Diante disso, por outro lado, a experiência formadora do trabalho implica uma dimensão de aprendizado, de construção de saberes, de autoria, coisas essas que ninguém nos tira, que estarão conosco para sempre.

Isso quer dizer que as experiências do trabalho estão sempre em movimento. Quando deixamos de olhar para a experiência laboral como aprendizado e a reconhecemos como fonte de sofrimento e desgaste, isso significaria que renunciamos a nossa formação por meio do trabalho. Aquela atividade deixa de contribuir com o nosso desenvolvimento e nós temos a sensação de que estamos estagnados, perdendo tempo ao realizar tarefas. E esse, creio eu, é o ponto de partida para desmotivação e rompimento com a dimensão formadora da experiência de trabalho. Quando reconhecemos este momento, estamos no momento de mudanças de rota e retomada da vida. Viver é se movimentar. “O que caracteriza o humano é, na verdade, a capacidade de se mover dentro de um universo de normas”.[4]

As situações são sempre retrabalhadas, quer dizer, analisadas e atualizadas em outros momentos. Como em um espiral, vamos avançando em conhecimento e sabedoria. Creio eu, a frase de Ralph Waldo passa por aí e por isso ele ressalta: o tempo dedicado ao trabalho nunca é perdido. Não se trata do contrato de emprego ou da determinação profissional, mas efetivamente da nossa experiência formadora do trabalho que emerge do tempo vivido.

Viver o tempo é colocar o corpo em esforço e registrar nele as mais diversas formas de informação, para que possamos criar, desenvolver e transformar.

Gislene Coffee and Work Lab

Gislene Feiten Haubrich é Doutora e Mestre em Processos e Manifestações Culturais. Dedica suas investigações aos estudos comunicacionais no contexto das organizações sob os enfoques da Ergologia, das teorias Bakhtiniana e Discursiva. Fale com: gislene@coffeeandwork.net