Reflecting

Recursividade: uma mola que nos aproxima e nos define

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A palavra recursividade ainda não entrou para aquele conjunto de chavões repetidos inúmeras vezes a ponto de transformar quase que por completo o sentido de surgimento de um termo. Uma hipótese trata da complexidade envolvida na sua expressão, além da apropriação informática. Edgar Morin trata da recursividade como um dos pilares fundamentais do pensamento complexo. Mas o que isso significa? Bom, com essa breve resposta que vamos construir, você vai entender por que mencionamos, com surpresa, o fato de a palavra recursividade (ou recursão) não ter se tornado uma buzzword.

O que é recursividade?

No livro, Introdução ao Pensamento Complexo, Morin explica que o princípio da recursão organizacional pode ser comparado ao processo de um turbilhão: os momentos são produtos e produtores simultaneamente. “Um processo recursivo é um processo em que os produtos e os efeitos são ao mesmo tempo causas e produtores do que os produz” (Morin, 2005, p. 74)[i].

Com esta proposta, Morin nos instiga a romper com uma ideia linear de causa-efeito para que nós abordemos as coisas mais dialeticamente, como um processo que se retroalimenta, ao ponto de que temos dificuldade para definir o que vem antes e o que vem depois; o início e o fim. Por exemplo, nós somos membros de uma sociedade que é constantemente reconstruída pelas nossas tomadas de posição.

O exemplo do idioma é bem ilustrativo: a língua se atualiza, pois decorre de seu uso. Oficialmente, a língua portuguesa não tem pronomes neutros para refletir a diversidade sociocultural do gênero. Entretanto, nós vamos construindo alternativas com os usos de “@, e, x”. Trata-se de um movimento recursivo de aprendizagem da língua e a sua atualização no cotidiano.

Bom, diante destas ideias iniciais, podemos abordar a frase de Emmanuel Mounier que selecionamos para refletir nesta semana.

“Todo o trabalho trabalha para fazer um humano ao mesmo tempo que uma coisa”

Emmanuel Mounier

Podemos discordar de inúmeras ideias defendidas por Emmanuel Mounier (ao final do texto fazemos uma breve apresentação das ideias dele). Entretanto, essa relação recursiva entre o que fazemos e nós mesmos, envolvido/as no fazer, é bastante interessante. Assim, tendo em conta a proposição inicial do conceito de recursividade por Morin, nós estamos atuando na atualização de sentidos acerca dessa ideia de Mounier. De certa forma, nós encontramos nuances do pensamento de Marx e da Ergologia nesta frase do autor, aspectos que vamos explorar neste texto aqui no blog.

Ideias gerais

Por um lado, a frase selecionada nos apoia na contestação de um valor há muito difundido em nossos contextos: esse esforço em desconectar o ato do ator, que tem seu ápice no início do século XX. Desde então, ela vem disfarçada com várias máscaras, mas está ali, sempre em evidência. Por outro lado, a frase também nos apoia na oposição à romantização do trabalho, enquanto paixão, caso em que a fusão entre ato e ator é quase uma profissão de fé: é preciso amar o trabalho acima de todas as coisas.

Entretanto, como em todas as dimensões da nossa vida, o trabalho é um contexto em que somos chamados a ação e mais do que o resultado, que tanto nos cobram (e nós cobramos também), o processo é que, de fato, vai determinando o que somos e como somos.

A relação com o nosso fazer, seja ele devoto a uma empresa, a nossa família, a uma comunidade, enfim, devoto ao outro, é percurso para que nós possamos entender quem somos. Por isso falamos em recursividade: salvo um dia específico em que somos trazidos a esse mundo, todo o resto está em movimento, é instável, mutável.

 

O diálogo possível com Marx

Quando falamos em dialética, lembramos de Marx e a atualização conceitual que ele promove[ii]. Se a recursividade é um movimento interdepende entre produto/produtor, falamos em um processo quase dialético. Entretanto, diferente da defesa do materialismo dialético, que nos levaria outras instâncias como a luta de classes, vamos manter a relação do humano com o mundo material que o define e vamos desenvolver algumas ideias a partir das concepções de alienação[iii] e de estranhamento. Nós sabemos que essa deslocação é arriscada e passível de crítica, mas nosso esforço aqui é na compreensão da atividade humana que, para Marx, era transformada em brutalidade por meio da imposição de padrões de produção.

Para Marx, no modo de produção capitalista o trabalhador renuncia à sua “natureza” para atender às demandas de outro sujeito, cuja situação financeira tende a ser superior, o que dá origem às classes sociais. Conforme Marx (2006)[iv], o fato de o sujeito dispensar seu tempo e sua vida em prol do recebimento de uma coisa, a remuneração, para produção de coisas as quais ele mesmo pagaria posteriormente, deveria causar estranhamento, pois está aquém de sua natureza. De acordo com o raciocínio de Marx (2006), o trabalho no sistema capitalista representa a perda de si, pois priva o sujeito do desfrute pleno da vida.

Bom, o que podemos apontar diante destas duas dimensões? a) do que Mounier aponta que ao trabalhar desenvolve-se o humano e a coisa que ele produz; b) do que Marx aciona em termos de alienação e estranhamento a essa coisa produzida na relação com seu produtor.

Inicialmente, ambos estão corretos em suas formas de olhar para o mundo do trabalho. A ênfase de cada um deles que distância as dimensões que ambos desenvolvem. Se para Marx o trabalho enquanto produção (e aqui precisamos lembrar que a categoria trabalho surge apenas no século XVIII, com a emergência da revolução industrial) esvazia a nossa experiência humana, pois almeja apenas construir coisas das quais não se tem compreensão, sem qualquer vínculo, para Mounier esse vínculo é indelével e nós precisamos encontrar alternativas para trazê-lo à luz.

Para Marx, a solução é a revolução que elimina classes e coloca todos numa posição comum. Para Mounier, a solução passa por reestruturar valores, garantindo liberdade ao indivíduo.

De pronto, essas ideias não são opostas, mas aí a recursividade faz com que a atualização delas acabe por originar trilhas completamente distintas. Algumas apropriações da teoria marxista acabam por esvaziar o comunitarismo da sua perspectiva. A proposição de Mounier e sua aproximação com o cristianismo culminam por perderem-se em meio a ressignificação com a solidariedade.

 

O diálogo possível com a Ergologia

Em modo distinto, e para muitos uma possibilidade de continuar a trilha de emancipação humana, a Ergologia também se apoia na recursividade para entender a relação do humano com seu meio. Há um meio que se impõe e inevitavelmente exige respostas da nossa parte. Não ficamos alheios, mas sempre escolhemos. Nossa escolha pode opor, sancionar, transformar os eventos, mas ela está ali, participando da construção do tecido social.

É por isso que podemos falar em solidificação de valores e de saberes. Cada instância de socialização vai oportunizando experiências, implicando esforços, acionando sentidos a partir do que já vivemos e do que se passa no aqui e agora. Quando vivemos, atualizamos esses saberes, pois vivemos no aqui e no agora e não no que convencionamos como passado, tampouco como o futuro. Ambas as situações implicam um estado oposto a saúde. A depressão decorre dos nossos desafios em lidar com o que já está inscrito no tempo (passado). A ansiedade expressa os nossos desafios quanto ao que queremos, onde queremos chegar e, o ponto essencial, quando queremos chegar. Entretanto, nosso único espaço decisório é no aqui e no agora. Por certo que essas decisões desencadeiam consequências, mas o que de fato se constitui como consequência já é um fato presente.

Essa ação, a escolha no aqui e no agora, resulta da aproximação singular (experiência) e histórica (aprendizado dos conceitos) de cada um de nós. Por exemplo, quando falamos em solidariedade, podemos ter muitas ideias em mente: do assistencialismo ao engajamento cidadão. A força de cada uma dessas possibilidades depende da nossa apropriação e renormalização no cotidiano. Neste caso, a compreensão da frase de Mounier é clara: quando fazemos algo, ainda que não tenhamos em conta a dimensão completa do todo envolvido por ela, há uma série de elementos do meio que vão implicar a nossa tomada de posição, que são a base para nossa ação.

A Ergologia nos apoia para perceber que o trabalho vai muito além da dimensão da produção, duramente – e corretamente – criticada por Marx. É por isso que, por vezes, defende-se que ela permite um passo adiante quando falamos de desenvolvimento humano. Por um lado, entendemos nossa margem de manobra às situações e possibilidades de intervenção no espaço micro. Por outro lado, trata-se de um processo de socialização, de aprendizado, de construção de saberes.

Entretanto, o reforço aos aspectos da produção acaba por invisibilizar a dimensão inventiva e transformadora do trabalho, por fim, tende a embrutecer nossa sensibilidade e dificultar a nossa gestão com o único momento que temos, de fato, algum nível de gerencia: o aqui e o agora.

 

Sobre Emmanuel Mounier

Filósofo francês, fundador da revista Esprit, em 1932[v]. Pensador vinculado ao que se convencionou chamar de “cristianismo social”[vi]. Ele é associado a um movimento chamado Personalismo, que teve emergência no contexto pós-crise econômica de 1929 e a ascensão do Nazismo[vii]. A ênfase está na noção de pessoa e seus direitos de existência, sendo uma forma de oposição a visões que visam apagar o individual frente o coletivo, surgindo como processo de análise do contexto mais próximo (mundo moderno, Século XX), num esforço de libertação de formas de governo, que sempre podem enveredar para expressões totalitárias[viii]. Para Mounier, precisamos centrar os olhares à “pessoa”, sendo que “pessoa” é definida como inter-relação entre dimensões de vocação, encarnação e comunhão[ix]. Para saber mais sobre esse pensador, indicamos a leitura deste artigo, de Braga e Severino (2017), na revista Temas em Educação[x].

 

Referências

[i] Morin, E. (2005). Introdução ao Pensamento complexo. Sulina.

[ii] https://educacao.uol.com.br/disciplinas/filosofia/marx—teoria-da-dialetica-contribuicao-original-a-filosofia-de-hegel.htm

[iii] Neste vídeo, a explicação do Prof. Ricardo Antunes é muito didática. https://www.youtube.com/watch?v=VR4kD_9kY4M&list=LL&index=6

[iv] Marx, K. Manuscritos Economico-Filosóficos.

[v] https://en.wikipedia.org/wiki/Esprit_(magazine)

[vi] https://www.wook.pt/autor/emmanuel-mounier/28743

[vii] https://brasilescola.uol.com.br/filosofia/o-personalismo-emmanuel-mounier.htm

[viii] https://www.youtube.com/watch?v=Ucao_Q5NS-4

[ix] https://www.youtube.com/watch?v=PHjj4OpJVcc

[x] https://periodicos.ufpb.br/index.php/rteo/article/view/32513

Gislene Coffee and Work Lab

Gislene Feiten Haubrich é Doutora e Mestre em Processos e Manifestações Culturais. Dedica suas investigações aos estudos comunicacionais no contexto das organizações sob os enfoques da Ergologia, das teorias Bakhtiniana e Discursiva. Fale com: gislene@coffeeandwork.net